Um estudo brasileiro com 4.280 adolescentes e seus responsáveis revelou que os estilos parentais podem reduzir significativamente o risco de consumo de álcool e drogas entre jovens, mesmo em famílias onde os pais utilizam essas substâncias. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), analisou como diferentes formas de educação parental influenciam o padrão de uso de substâncias entre gerações.
Os dados foram coletados entre 2023 e 2024 em quatro municípios paulistas de pequeno porte: Cordeirópolis, Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim. A idade média dos jovens participantes foi de 14,7 anos, com distribuição quase igual entre meninos e meninas, segundo informações divulgadas pela Agência Fapesp.
Estilos parentais e consumo de álcool e drogas
A pesquisa identificou que o estilo parental autoritativo, caracterizado por vínculo afetivo, presença, diálogo e regras claras, apresentou o maior efeito protetor contra o uso de substâncias. De acordo com a professora Zila Sanchez, do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp e autora principal do artigo, essa abordagem combina acolhimento e monitoramento adequado dos filhos.
Além disso, foram analisados outros três estilos: autoritário, que também reduziu o risco para drogas mas com menor impacto para álcool; permissivo e negligente. Estes dois últimos não apresentaram efeitos protetores, conforme publicado na revista científica Addictive Behaviors em março de 2025.
Influência do comportamento dos pais
O estudo revelou números importantes sobre a transmissão intergeracional do consumo. Quando os pais consomem apenas álcool, a probabilidade de uso pelos filhos é de 24% para bebidas alcoólicas e 6% para duas ou mais drogas. Entretanto, se os responsáveis utilizam várias substâncias, o risco salta para 17% e 28%, respectivamente.
Ainda assim, a forma como os responsáveis educam pode amenizar significativamente esse risco. A pesquisa incluiu o consumo de cigarro, vapes (cuja comercialização é proibida no Brasil) e maconha na análise dos perfis de uso.
Abstinência parental como principal fator protetor
O maior preditor de abstinência identificado pelo estudo foi o não uso de substâncias pelos responsáveis. Segundo a professora Sanchez, quando os pais são abstinentes, 89% dos adolescentes também não consomem álcool nem outras drogas lícitas ou ilícitas, sendo esta a associação mais forte encontrada pela pesquisa.
“Com esse estudo, reforçamos o fato de que o padrão de uso de álcool e outras drogas pelos pais influencia o dos filhos. Porém, se eles colocarem regras e limites em casa e derem afeto, esses fatores de proteção minimizam muito o risco”, afirma a pesquisadora à Agência Fapesp.
Contexto do consumo entre adolescentes brasileiros
Entre os adolescentes participantes, o consumo de álcool no último mês foi de 19,9% e o consumo excessivo episódico de 11,4%. Entre os responsáveis, os percentuais foram significativamente maiores: 56,4% e 20,3%, respectivamente.
No cenário nacional, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pela Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça, mostra que 27,6% dos adolescentes de 14 a 17 anos já consumiram álcool alguma vez, o que corresponde a aproximadamente 3,2 milhões de pessoas. No último ano, o uso foi relatado por 19%, equivalente a 2,2 milhões de jovens.
Metodologia e implicações científicas
Os pesquisadores utilizaram técnicas estatísticas avançadas, incluindo Análise de Classe Latente (LCA) e Análise de Transição Latente (LTA), para identificar perfis de uso de substâncias e modelar associações entre gerações. A LCA permite identificar subgrupos dentro de uma população a partir de padrões de respostas, enquanto a LTA estima probabilidades de passagem entre diferentes perfis.
A professora Sanchez, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Álcool e outras Drogas (Previna) da Unifesp, já havia publicado em 2017 um estudo demonstrando associação gradual entre estilos parentais e consumo de drogas por adolescentes. Na época, os resultados apontavam que jovens com pais negligentes tinham maior probabilidade de frequentar aulas sob efeito de substâncias.
Riscos do consumo precoce
A pesquisa destaca que mesmo em famílias com boas práticas educativas, o consumo de bebidas alcoólicas pelos responsáveis seguiu associado ao uso pelos adolescentes. Isso reforça a necessidade de cautela com a naturalização desse comportamento dentro de casa, segundo a professora Sanchez.
Retardar o início do uso entre jovens é considerada uma das estratégias mais eficazes para diminuir o consumo futuro e os danos posteriores. Estudos epidemiológicos demonstram que intervenções de base comunitária, com ações de prevenção escolar, programa familiar e estratégias ambientais, promovem efeitos mais consistentes e de longo prazo.
A pesquisa faz parte do projeto “Redução do consumo de álcool entre adolescentes através de uma intervenção multicomponente de base comunitária”, financiado pela Fapesp. O projeto busca investigar estratégias comunitárias eficazes de prevenção e produzir evidências científicas capazes de orientar políticas públicas, com a próxima fase focada na implementação de intervenções nos municípios participantes.









