A distribuição da gordura corporal pode ser mais determinante para a saúde cardiovascular do que o peso total, especialmente entre os homens. Essa é a principal conclusão de um estudo apresentado no final de 2024 durante o congresso da RSNA (Sociedade Radiológica da América do Norte), nos Estados Unidos, que investigou o impacto da gordura abdominal sobre a estrutura cardíaca.
A pesquisa analisou mais de 2.200 adultos com idades entre 46 e 78 anos, sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular. Os participantes foram submetidos a exames detalhados de ressonância magnética do coração para avaliar possíveis alterações estruturais relacionadas ao acúmulo de gordura.
Gordura abdominal e risco cardiovascular
Os pesquisadores compararam o IMC (índice de massa corporal) com a relação cintura-quadril, que indica a concentração de gordura na região abdominal. According to o estudo, a gordura abdominal esteve associada a alterações cardíacas mais preocupantes do que aquelas relacionadas apenas ao excesso de peso global.
A obesidade abdominal merece atenção especial porque está diretamente ligada ao acúmulo de gordura visceral, aquela que se deposita profundamente ao redor de órgãos como o fígado. De acordo com a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita, diferentemente da gordura subcutânea, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias inflamatórias na circulação.
Alterações na estrutura cardíaca
Esse processo cria um estado de inflamação crônica de baixo grau e favorece manifestações como resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial. Esses fatores sobrecarregam o coração ao longo do tempo, segundo a pesquisa.
Os resultados dos exames de imagem mostraram um remodelamento do músculo cardíaco à medida que a relação cintura-quadril aumentava. Havia um espessamento do músculo cardíaco, especialmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de uma redução do espaço interno das cavidades.
De acordo com a cardiologista, com a obesidade e o estado inflamatório crônico, o coração passa a trabalhar contra uma pressão maior. O espessamento reduz o espaço interno das cavidades e deixa o músculo mais rígido, fazendo com que o coração acomode menos sangue a cada batimento.
No início, o órgão tenta compensar batendo mais rápido. However, com o passar do tempo, essa sobrecarga compromete sua capacidade de relaxamento, podendo resultar em um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue contrair, mas não se enche adequadamente.
Diferenças entre IMC e medidas abdominais
Quando o peso total foi avaliado isoladamente pelo IMC, o padrão observado diferiu. Indivíduos com IMC elevado, mas sem grande concentração de gordura abdominal, apresentaram aumento do tamanho das câmaras cardíacas, sem o mesmo espessamento da musculatura.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos cardiovasculares diferentes. Segundo Juliana Soares, o IMC não diferencia massa muscular de gordura nem mostra onde essa gordura está localizada, enquanto a relação cintura-quadril direciona o olhar para a gordura central.
Impacto maior em homens
Outro achado relevante é a diferença do risco cardíaco entre homens e mulheres. Embora ambos apresentem alterações associadas à obesidade abdominal, os efeitos são mais intensos nos participantes do sexo masculino, de acordo com o estudo.
Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura: homens tendem a acumular gordura do tipo androide, concentrada no abdômen. Meanwhile, as mulheres, especialmente antes da menopausa, costumam apresentar um padrão ginoide, com maior depósito de gordura subcutânea em quadris e coxas.
Additionally, fatores hormonais parecem exercer papel importante. O estrogênio tem efeito cardioprotetor e influencia o metabolismo da gordura, mas com a queda desse hormônio após a menopausa, essa proteção diminui, aproximando o risco feminino ao masculino.
Medidas preventivas e avaliação do risco
Na prática, os resultados reforçam a necessidade de ampliar como o risco cardiovascular é avaliado. Medidas simples, como a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, podem ser obtidas com uma fita métrica e fornecem informações relevantes.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular. Essas medidas podem complementar a avaliação tradicional baseada apenas no IMC.
A cardiologista do Einstein enfatiza que é essencial que o processo de emagrecimento aconteça a partir de hábitos saudáveis mantidos a longo prazo. Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso, segundo a especialista.









