A descoberta de um retrato do astrônomo britânico Richard Carrington, 150 anos após sua morte, finalmente revela o rosto do homem por trás do Evento Carrington, a tempestade geomagnética mais intensa já registrada na história. O trabalho de investigação da arquivista Kate Bond, da Royal Astronomical Society em Londres, trouxe à tona a fotografia que há décadas era procurada por pesquisadores e cientistas interessados em física solar. A descoberta do Evento Carrington remonta a setembro de 1859, quando fenômenos extraordinários foram observados em todo o planeta.
Em 1º de setembro de 1859, fortes picos de corrente elétrica causaram choques em operadores de estações telegráficas e incêndios em seus escritórios. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), algumas máquinas telegráficas enviaram mensagens mesmo sem estarem conectadas à energia. Auroras brilhantes foram vistas até o sul do Panamá, regiões onde normalmente esses fenômenos não ocorrem.
O Evento Carrington e suas consequências históricas
O evento continua sendo a tempestade geomagnética mais intensa já registrada, representando uma grande perturbação do campo magnético da Terra devido à atividade solar. Naquela época, os efeitos da atividade solar na Terra, conhecidos como clima espacial, eram completamente desconhecidos pela comunidade científica. Carrington havia observado uma grande erupção solar no dia anterior, tornando-se a primeira pessoa a testemunhar e registrar tal fenômeno.
Embora seu colega Richard Hodgson também tenha observado a erupção solar, Carrington estabeleceu o que é considerado a primeira ligação direta entre a atividade solar e geomagnética. De acordo com Mark Miesch, cientista pesquisador do Centro de Previsão do Clima Espacial da NOAA, essa conexão deu origem à ciência do clima espacial. Carrington avistou a brilhante erupção enquanto usava um telescópio para projetar a imagem do sol em uma tela.
Apesar de suas importantes contribuições para a física solar, Carrington não é muito conhecido do público geral. Os pesquisadores suspeitam que isso se deva em parte ao fato de não haver uma imagem pública associada ao seu nome. Essa ausência de representação visual dificultou a divulgação de seu legado científico ao longo dos anos.
A descoberta surpreendente do retrato perdido
Bond se interessou por Carrington após ler “Os Reis do Sol”, de Stuart Clark, onde o autor menciona que gostaria de ter visto um retrato do astrônomo. Um artigo de pesquisa de 2021, de autoria de membros da Royal Astronomical Society, também mencionou a busca pela fotografia. Nem mesmo buscas exaustivas em museus e arquivos revelaram qualquer semelhança autêntica.
Durante uma conversa com Hisashi Hayakawa, professor assistente do Instituto de Pesquisa Ambiental Espaço-Terrestre da Universidade de Nagoya, Bond decidiu pesquisar a frequência de vendas de fotos em sites de leilão. Em tom de brincadeira, ela recorreu ao eBay e encontrou uma loja de fotografia nos Estados Unidos vendendo um lote de fotos antigas. Uma delas tinha “o falecido Carrington” escrito a lápis na moldura, junto com as letras FRS, abreviação de Fellow of the Royal Society.
A foto correspondia às dimensões de todas as outras imagens associadas ao Clube de Retratos Literários e Científicos. Após refletir durante toda a tarde, Bond comprou a fotografia naquela noite, com medo de que a oportunidade pudesse escapar. No entanto, era necessário mais trabalho de investigação para confirmar que se tratava mesmo de Carrington na foto.
Evidências conclusivas da autenticidade
Quando a foto chegou, Bond viu o que ela chama de prova irrefutável, algo que não estava visível online. Ao colocar a fotografia em uma mesa de luz, uma inscrição invertida ficou mais nítida. Os especialistas da Biblioteca John Rylands em Manchester concluíram que se tratava de uma inscrição no verso da gravura, feita antes de ser emoldurada.
A inscrição dizia “RC Carrington, advogado, em nome de CV Walker, advogado”, segundo Bond. Charles Vincent Walker indicou Carrington para ser membro da Royal Society, e os dois eram amigos próximos. Walker também era membro do Photographic Club, e a inscrição sugere que ele foi dono da fotografia em algum momento, confirmando sua autenticidade.
Carrington era membro do Clube de Retratos Literários e Científicos, e todos os membros eram obrigados a ter um retrato tirado no estúdio Maull & Polyblank em Londres. O clube funcionou entre 1854 e 1865, quando a fotografia ainda estava em seus primórdios. A Galeria Nacional de Retratos possui uma lista de membros do clube que inclui o nome de Carrington.
As contribuições científicas do Evento Carrington para a astronomia moderna
Ao longo de um período de nove anos, Carrington fez importantes descobertas sobre o Sol. Em 1859, ele recebeu uma Medalha de Ouro da Royal Astronomical Society por seu catálogo de estrelas circumpolares. Additionally, Carrington percebeu que as manchas solares perto do equador solar giram mais rápido do que aquelas em latitudes mais altas, segundo Miesch.
Suas observações foram as primeiras a sugerir que o Sol é mais fluido do que sólido, especificamente plasma, com correntes globais que transportam as manchas solares em velocidades diferentes. Em 1857, Carrington presenteou Heinrich Schwabe com uma medalha de ouro por sua descoberta do ciclo solar de 11 anos. Esse ciclo corresponde às manchas solares e erupções solares que ocorrem na superfície do Sol.
Tempestades solares como o Evento Carrington acontecem aproximadamente a cada 500 anos, enquanto aquelas com metade da intensidade ocorrem aproximadamente a cada 50 anos, de acordo com a NOAA. Lyndsay Fletcher, professora de astrofísica na Universidade de Glasgow, classificou a descoberta do retrato por Bond como um incrível golpe de sorte e trabalho de detetive. Durante anos, Fletcher estudou as chamadas erupções de luz branca do Sol, descobertas por Carrington.
A fotografia de Carrington foi adicionada aos arquivos da Royal Astronomical Society e já aparece em sua página na Wikipédia. Segundo Bond, é apropriado que a fotografia pertença à sociedade, pois representa o retorno simbólico do astrônomo ao local onde suas contribuições científicas foram reconhecidas. A possibilidade de existirem outras cópias dessa impressão permanece incerta, mas esta pode ser a única fotografia conhecida do cientista.









